quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Reflexo

É tarde da noite, a janela aberta convida a brisa serena de um céu plácido sem luar. Meus pensamentos me distraem, palavras emergem de forma aleatória em minha mente. Agarro-me a uma; espelho! Como o sono teima em me possuir, caminho até o espelho mais próximo. Encaro a imagem que se forma sobre a tenra luz e eis que me pego ponderando:

- Espelho, espelho meu! O que esse reflexo diz sobre o meu eu?

- Diz o que falta, responde uma voz proba. - O que falta para ser o que deveria ser! Mostra as marcas do tempo que estão estampadas em sua face. Cada ruga, cada fio de cabelo a grisar são a prova de suas escolhas. É um mapa que lhe ajuda a compreender todas as escolhas erradas. Ah! Já os espaços vazios que seu reflexo revela em sua pele! Ahh! Esses dizem o que você ainda pode ser! São as oportunidades que a vida, generosamente, ainda lhe dá. Cada nova ruga, cada novo fio de cabelo a grisar que preenchem um espaço vazio, contam. Não deixe que suas rugas e cabelos grisalhos sejam sinônimos de arrogância, mas sim de humildade. Não se torne velho, mas sim sábio! Os espaços vazios, de pele ainda branda, traçam um infinito de caminhos para cumprir sua sina no mundo: ser, essencialmente, bom.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Bazar da Aspiração

Dia após dia
Seja um dia ruim
Ou um dia bom
Vendem-se desejos!
É como o intrépido Chaves a gritar:
Churros, churros! Olha o churros!
Mas não são churros!
São desejos!
Só não lhes dizem o óbvio
Não são os seus desejos!

Dia após dia
Seja um dia alegre
Ou um dia triste
Compram-se desejos!
É como o tenebroso Gollum a gorgolejar:
Ah, meu precioso! Meu precioso!
Mas não têm valor!
Quimeras de uma sociedade torpe
Produtos de indivíduos fúteis
Prelúdio da inanição!

O pior cego, dizem
É o que não quer ver!
Então...
Por que compras o desejo de outrem?
O pior cego, digo
É o que não quer sonhar seus próprios sonhos!

sábado, 23 de novembro de 2013

Corrida

_ Ei, você! Ei, VOCÊ!!!
_ Heim, eu?
_ Corra!

Corre o sangue em suas veias, assim como correm os minutos das horas do dia. Corre, portanto, o tempo que te sobra em vida. Seu tempo não apenas corre, ele se esvai. Líquido como a água a escorrer por entre seus dedos. Sibilante como a bruma fria do outono.

Tic Tac

Corre a roda de Samsara e seu ciclo de retorno e recorrência. Mas você sabe que isso aqui é a vida real? Esqueça a próxima vez! Corre a roda até o único final.

Tic Tac

Correm os sentimentos. É uma mistura escarnada de angustia e desespero. Correm as lembranças. É o ápice do medo. Corre a razão. É a perda da emoção. Corre o ceifador... não. Ele anda placidamente, afinal, ele é o instante.

Tic Tac

Corre o aroma do Éter pelas suas entranhas. Corre a certeza. Corre sua luz astral. Correm suas lágrimas. Corre o desapego, não existe mais corrida para o arrependimento.

Tic Tac

Você não corre mais.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Após os copos, a reflexão!

E o que fere é a ignorância alheia.
Pois não basta o argumento não viesado.
Bom senso é mato! Como dizem no meu sertão!
Reinam as certezas leoninas.
Conveniências macartistas.
É a falta de opinião!
Lacerda já o dizia:
Getúlio, que atire no coração!
E de minha tenra ingenuidade,
Brota a aflição!
São os mandos e desmandos
De uma minoria da população.
Ismael já me dizia:
Quebre as grades,
Rompa os grilhões.
E o querer me abomina,
Sofro em eterna desilusão!

Máscara

Maldita máscara de densa sombra
Que me oculta o caráter, sufoca a alma.
Em espasmo e agonia astral a alma morre.
É o revés do finito num turbilhão de infinito.
É a certeza do adepto.
É a incerteza do renegado.
É a tênue linha da perdição.
É o martírio do insatisfeito.
Caminho sem volta.
No fim nem luz, nem escuridão.
É o eterno vazio.
É a fome insaciável.
É o mar de desilusão.
É a loucura do íntegro.
Bendita máscara de tenra sombra
Que me oculta a face, enxuga a lágrima.

Outrem

Nasci em um ambiente planejado por outrem.
Cresci em meio às ideias de outrem.
Cultuei os deuses de outrem.
Criei uma personalidade à imagem de outrem.
Eram o certo e o errado de outrem.
Foram as virtudes e os vícios de outrem.
Lutei as batalhas de outrem.
Perdi e venci, por outrem.
Eu era outrem.
Eu sou outrem.
Eu serei outrem.
Assim como você.
Somos essa pluralidade de outrem.
Somos todas as influências de outrem.
Apesar de alguns usarem filtro, ainda continuam sendo outrem.
Não é óbvio?
E ainda nos ensinam tolerância. Tolerância a outrem!
Veja bem, tolerância! Não respeito.
Seu outrem tolera meu outrem, mas não o respeita.
Eterna batalha entre os egos de outrem.
Existem outrem e outrem.
Mas não há espaço pra outrem.
E no movimento harmônico que deveria ser o mundo,
O outrem espalha a perturbação.
É a dissonância perpétua do outrem.
E ninguém se conhece.
Mas apenas o outrem.
Pobre daquele que mata seu outrem.
É um pária.
Um proscrito na terra de outrem.

Conversas de Boteco: Medos

De fato, pessoas sensatas ponderam sobre seus medos. Vez ou outra conversam abertamente sobre eles. Medos de todas as formas, desde os racionais, normais... digamos aceitáveis, até os surreais e os do tipo "puta que pariu, que merda é essa?". Não me preocupo com "medos". Afinal, só tenho um. E quanto a ele fico descansado, uma vez que nunca será possível ocorrer nessa dimensão que vivemos. Quem sabe algum avanço da ciência o torne fatídico para meu desespero. Bah, não acredito que viverei até lá. Coisa engraçada de se pensar. Mais engraçado é imaginar as pessoas acometidas pelo mesmo medo. Confesso que seja um exercício difícil. Sim, imaginar as pessoas com esse medo. Porque não sou como qualquer pessoa. Não, acredito que ninguém nunca sequer pensou que esse medo exista. Um homem sem medo! Pois! Mas tenho esse medo. O pah, mas, de fato, é um medo só meu. Mas é um medo, então não posso ser um homem sem medo. Acho que tem um filme com esse título. Ou era uma HQ? Isso, com o Ben Affleck. Exato! Adaptação de uma HQ. Aqui eles dizem banda desenhada. Sim, zuado. Sim, o filme, não o linguajar. Só salva a Jennifer Garner, concorda? Tá, não tinha as curvas de uma brasileira, concordo, mas que se fodam as curvas, quanto conceito visual, não sabia que era tão superficial! Porra, isso não vem ao caso. Pois então voltemos ao medo. Descrevê-lo em palavras. Já tentei defini-lo. Meu amigo, você sabe que sou obcecado por definições, caso contrário poderia rasgar meu diploma de Matemático. Verdade, de fato não o uso. A última vez que o vi ele estava jogado no fundo de uma gaveta. É bonito dizer que sou Matemático. Além de ser bom pro ego, intimida os mais incautos. Isso, pra não dizer babacas. Esses têm medo de tudo. Pois é, tem quem tenha medo dos números. Foi o Pitágoras sim; “tudo é número”. E o seu diploma? Sabia! Típico. Moldura e tudo o mais. Exibicionismo barato. Ah, ficou com o orgulho ferido? Toma outra dose que sara. Já falei com uma psicóloga sim. Cara, tu frequentou a universidade, tu viu como eles eram enquanto estudantes. Isso, a não ser que seja um Dr. Lecter não dá pra confiar nas deduções deles, pura inferência. Boa, estimativa pontual com uma variância explosiva. Não diga isso pra eles porque hoje em dia são metidos a saber estatística! O que ela disse? Na verdade fui lá pra que me ajudasse na definição. Ficou toda perdida. Não, não a culpo. Tentamos enquadrá-lo em alguma fobia já catalogada. Sim, existe um catálogo. Por favor, um mínimo de organização! Já te disse, não nessa dimensão. Se estou enxergando outras dimensões? Não fumo desse tipo de tabaco. É uma causa perdida, confesso. Não sou apegado a isso. Só me apego ao que é crível, sabe como funciona meu ceticismo. Exato, não sei nem se é crível. E por falar em eventos verossímeis, você viu a última do Guinness?